Passava da meia noite, e eu ainda estava lá, tocando levemente algumas teclas aleatoriamente, pra que delas saísse aquele nítido e baixo som. Embora sem idéias, sentindo o ar frio que subia pela barra da calça e me encolhendo de frio, eu ainda tinha alguma esperança de poder compor algo. Uma hora ou outra, alguma sequência vinha à minha cabeça, e eu logo escrevia, mas depois, se esvaía como areia por entre os dedos, e, novamente, nada mais eu tinha. Que ironia... Eu passara metade da minha vida executando peças de vários estilos, autores, épocas e velocidades, e agora, nada havia em minha cabeça. Era tudo vazio. Nada se podia ouvir. Nenhum som, ruído ou resquício de passos. Apenas o grito do silêncio, que de vez em quando era quebrado pelo toque das teclas que incitavam os martelos a percutir as cordas do piano criando um som quase que inaudível. Os minutos passavam e eu continuava debruçado no piano, com o lápis por entre os dentes e o caderno pautado sobre o apoio de partituras.
'Lembra do que te faz feliz' disse uma voz desconhecida. Todo tédio, vazio e silêncio fora quebrado naquele instante. O que era aquela voz? Quem era? Após ouvir a voz, em menos de um segundo eu coloquei o lápis em frente ao apoio de partituras e me levantei, procurando por essa pessoa, ou seja lá o que fosse. Olhei por todos os cantos da sala e não achei ninguém nem nada que pudesse me levar ao sujeito. Era muito estranho tudo aquilo. O que seria? Um fantasma? Não sei... Apenas sei que fiquei com muito medo do que pudesse ser.
Depois de ter revirado todo andar térreo da minha casa, salas, cozinha, toaletes, voltei ao piano, sentei no banco e peguei novamente o caderno de pauta na esperança de me ocorrer alguma ideia. Quando abri o caderno, por pouco não caí para trás. Uma nova música estava escrita lá, uma partitura de duas páginas com a minha caligrafia. Antes de mais nada folheei o caderno para ver se tinha algo mais. Mas infelizmente- ou felizmente, não sei dizer- não havia nada mais. Não sabia se eu tentava executar aquela música ou se eu deixava lá, subia até o meu quarto e ia dormir...